Kroeber

#000086 – 10 de fevereiro de 2020

A banda desenhada escreve-se, como o cinema. É estranha e gratificante esta escrita que não é ainda o objecto artístico. Raramente a arte é tão utópica. Escreve-se esperando que a nossa imaginação floresça nas imagens que o artista criará.

#000085 – 09 de fevereiro de 2020

Gosto das tuas músicas, do timbre claro e marítimo do teu riso, do ritmo do teu silêncio. Gosto de escutar-te, de saber que o mundo é habitado por ti, de viveres também na minha memória. Gosto do meu coração quando te sente, desse vigor de querer agarrar a vida, da luz que as coisas ganham na tua presença. Gosto da vastidão da tua calma, desse rumor de ondas no litoral, da força que tens dentro. Gosto da tua intensidade, de uma indomável liberdade com que falas e intuis e do teu corpo. Gosto da forma como a felicidade te enche o rosto e o sorriso a seguir como uma estrela, gosto da forma como sacodes a tristeza da garganta. Gosto do teu canto, da tua voz, do teu sossego. Gosto de ti.

#000084 – 08 de fevereiro de 2020

Nos anos 90 do século passado, um meme foi bastante eficaz. Nessa altura, a conotação imediata da expressão meme ainda era a original, proposta por Richard Dawkins num livro publicado em 1976. Dizia-se: “um ser humano não é um número”. Esta verdade cultural propagou-se como uma forma de partilhar uma certa resistência. Nessa altura tudo se começava a digitalizar e havia receios de que essa transição fosse também uma forma de desumanização da cultura.

Nesta era pós-Snowden, a forma de resistir é voltar a ser um número. Apenas a criptografia tem capacidade de nos proteger de abusos da nossa privacidade e segurança online, abusos legais e ilegais. É ao transformar a informação sobre o que fazemos e somos em algo indecifrável que podemos manter um reduto de dignidade e dificultar a vida dos que usam neurologia, ciências cognitivas e machine learning como armas e os nossos dados e metadados como munição.

Uma dificuldade tem impedido a propagação de ideias mobilizadoras. Ainda temos o paradigma de há décadas atrás. Tratarem-nos pelo nome como o Google faz todos os anos, dando-nos os parabéns na sua página inicial, é sentido como algo humanizante. A tecnologia computacional conhece-nos, sabe quem somos. A nossa identidade está nas mãos de centenas de entidades, desde agências de segurança até empresas que nos vendem como alvo bem parametrizado para publicidade. Parecemos bastante resignados com isso precisamente desde que saibam quem somos e não nos confundam com quem não desejamos ser. O triste meme “eu não tenho nada a esconder” é expressão dessa desistência de um espaço de intimidade e discrição.

A lei europeia de proteção de dados é um avanço, que merece apoio e continuidade. Mas estamos ainda num início muito tímido. O serviço Pipl é talvez o maior neste negócio de informação sobre identidade, com os seus anunciados 3 mil milhões de perfis, ou seja de identidades reais de pessoas. O número de pessoas que o Pipl “conhece” é equivalente a mais do que a população da China e da Índia juntas, é quase igual à soma dos utilizadores do Facebook e do Instagram, ou a 39% das pessoas que vivem na Terra. Avisa esta empresa no seu site que qualquer pessoa pode submeter um pedido de remoção dos seus dados, ao abrigo das leis internacionais. Mas avisam: uma vez que as maiores organização de comércio digital usam os serviços Pipl como forma de verificação de identidade, depois da remoção pode acontecer que uma tentativa de compra online seja recusada. É este o estado em que estamos: a conveniência dos serviços online exige-nos tudo em troca de muito pouco.

Não basta dizermos que somos mais do que os nossos dados. Seria o mesmo que dizermos que somos mais que a cama em que dormimos em resposta a termos uma multidão de desconhecidos permanentemente a entrar e sair do nosso quarto.

#000083 – 07 de fevereiro de 2020

Vi um arco-íris. A nítida curva colorida a desfazer-se no Porto de Pireus. Ouro a descobrir no rumo das ilhas.

#000082 – 06 de fevereiro de 2020

Recolhia a roupa do estendal separando calças de camisolas e vinham-me à ideia outras distinções mais fabulosas. Para a Emil Ferris, o monstro é o eu, talvez até o lado verdadeiro. Ou, numa interpretação à Zizek, é o vizinho em mim. O China Miéville, cuja coisa favorita também são os monstros, fala do corpo composto, da agregação de partes que não pertencem a um mesmo conjunto. E diz que não são uma metáfora de outra coisa. Que gosta que os seus monstros acreditem em si próprios. Num livro da Clara Pinto Correia, os monstros são presságios, sinais apocalípticos, evidências de ruptura e perturbação, excesso histórico. Os dragões da Ursula K. Le Guin são monstruosos. Estão para além do tempo humano, falam mas as suas mentes não entendem a verdade humana, separações para nós evidentes como as que intuímos entre aqui e ali, sim e não. Numa história que escrevo, com monstros, algumas destas influências estarão lá. Algo do que é indomável, do que resiste à realidade e a codifica, solidificando imagens do que não é.

#000081 – 05 de fevereiro de 2020

Ontem, um lugar se abriu no obscuro território do íntimo. A escrita com caneta e papel é desenho com palavras. Lembrei-me da N. K. Jemisin, durante a conversa à volta das nossas escritas. Um grupo de escrita parece-me uma boa ideia. Falar com outros escritores ajuda a ganhar coordenadas, a pedir emprestadas outras perspectivas. E há o risco de receber boas ideias, mais nitidez ou cor ou contexto. Ontem, arrumei a casa. Não só literalmente.

#000080 – 04 de fevereiro de 2020

Hoje, senti esse delicioso desconforto de ter roupa a mais. O Inverno de repente palavra desadequada para a luz clara e a temperatura amena. O cachecol guardado como peça exótica na mochila e o casaco a pesar num aconchego cómico.

#000079 – 03 de fevereiro de 2020

Amanhã, junto-me de novo a outras pessoas para escrevermos todos na mesma mesa, com papel e caneta. Na semana passada contei-lhes como fui todos os dias até à Biblioteca Almeida Garrett no Porto durante o tempo de escrever um livro. E me sentava naquele maravilhoso quadrado, as quatro faces repletas de pessoas viradas umas para as outras, ao longo do amplo poço de luz. A longa janela horizontal a produzir uma faixa de verde, luz filtrada na ramagem das árvores. E as palavras saíam-me com mais facilidade, a solidão de repente recortada e introduzida num todo. Um ato coletivo, algo que ainda precisa de proximidade, da redução da distância até que a atmosfera se preencha com o som dos outros e uma paisagem de humanos à nossa volta. Isto é algo que a tecnologia digital não substituiu. Nestas coisas, computadores e redes servem apenas como forma de agendar o que importa.

#000078 – 02 de fevereiro de 2020

“We live in a world ruled by fictions of every kind… The fiction is already there. The writer's task is to invent the reality.” – J. G. Ballard.

#000077 – 01 de fevereiro de 2020

Cory Doctorow escreve com uma perspectiva de insider, no que toca à computação. No que Jaron Lanier é conciliador, Doctorow é libertário. Demorei a assimilar o que me desafiava e a repensar os meus modelos. Cada vez mais tenho simpatia pelos cypherpunks, pela resistência ao patent trolling, pela necessidade de produzir e proteger software e hardware livres, não apenas open source. Foi previsto pelos pioneiros da tecnologia digital, há décadas atrás, que tudo se transformaria em software. Usamos expressões que mostram que isso já está a acontecer: “uberização”, termo da cultura popular, “Software Is Eating The World”, de um título de Marc Andreessen ou “Siren Server”, conceito de Jaron Lanier.

O perigo, por exemplo, que a produção e edição de livros seja engolida por 2 ou 3 gigantes ou mesmo apenas pela Amazon é real. Os leitores, nessa distopia que vários tecnólogos e CEO's procuram realizar, nunca seriam donos de livros. A nuvem teria todos os livros que alguém decidiu podem estar disponíveis, e os utilizadores apenas uma licença, que expira quando deixam de pagar a subscrição. Ainda numa perspectiva de defesa do capitalismo, Lanier lembra que um livro físico é um objecto que se possui, que pode até valorizar com o tempo e cujo dono o pode mesmo voltar a vender. Já a revenda de um ebook extraído da nuvem é ilegal e o ficheiro nem sequer é suficientemente valioso para que possa ser revendido.

Os heróis que nos podem inspirar são pessoas como Aaron Swartz, criador da licença Creative Commons e do formato RSS e cuja história trágica começou quando decidiu aceder ao servidor do MIT para fazer o download de uma grande quantidade de artigos científicos para os tornar públicos. Um número reduzidíssimo de gigantes detém os direitos sobre o conhecimento científico. O que nos liga também nos separa. Antes das patentes e do copyright, alguém que visitasse outra cultura ou sociedade poderia copiar e introduzir uma tecnologia nova ao regressar. Isto, que nos permitiu os avanços de que agora beneficiamos, foi ilegalizado. E pode assim a cura de uma doença terrível valer tanto dinheiro que a empresa dona do medicamento necessário pode subir o preço escandalosamente. Como Aaron Swartz, como as personagens utópicas e desenrascadas das histórias de Cory Doctorow, há que resistir. Sim, pode vir um futuro em que uma impressora 3D nos permita imprimir quase tudo. Mas se os direitos do ficheiro necessário para imprimir um filtro de água, um painel solar, uma bicicleta elétrica e os milhões de objetos do nosso futuro pertencerem a uma empresa, então seremos mais dependentes que nunca. Há que resistir.