Kroeber

#000076 – 31 de janeiro de 2020

Uma amiga querida trouxe-me de Portland o meu livro favorito, assinado pela Ursula K. Le Guin. Eu, que nunca tinha valorizado autógrafos, comovi-me pela história daquela dedicatória. Ao ver o documentário sobre Le Guin, ali estava ela a fazer uma leitura na livraria onde se passou a conversa com a minha amiga. Diz ao Nuno que eu comecei o meu blogue inspirada pelo Saramago. Portugal e Portland. Jangada de Pedra e Ecotopia. Vim para a Grécia e morreu-me a mulher que escreveu histórias que me reinventaram. Dói-me saber que agora é possível contar todos os seus livros. Sou lento e hesito em devorar a bibliografia que quero infinita, inacabável. Há uma coragem feita de modéstia e desobediente firmeza que nos continua a fazer falta. Que haja ainda autores insubmissos, a resistir à redução de tudo a um servidor, a finanças, a marketing. Ursula K. Le Guin recebeu um prémio de carreira e perante todos os poderes manteve a sua voz lúcida e inspiradora. Não foi ali para se consagrar, mas para lembrar: “We who live by writing and publishing want and should demand our fair share of the proceeds; but the name of our beautiful reward isn’t profit. Its name is freedom.”

#000075 – 30 de janeiro de 2020

“No one should ever work”. Primeiras palavras e primeiro parágrafo do incisivo “The Abolition of Work” de Bob Black. Nenhum libertário, avisa Black na pequena introdução ao ensaio, pode evitar a questão do trabalho. Quase 100 anos antes do texto de Bob Black, Alexandra David-Néel publicava “Pour la Vie”. Um e outro ensaio têm um fervor de manifesto e explicam as razões por que devemos considerar o trabalho uma forma de escravatura assalariada. A palavra em português tem mesmo uma origem sinistra. Tripalium: três paus. A palavra latina designa a estrutura de madeira onde os escravos eram amarrados e torturados, de pernas e braços abertos. Desde a época feudal que a necessidade de trabalhar é o que distingue as classes. Os senhores possuem. Os servos estão sob o jugo dos senhores. E foram os senhores feudais que primeiro criaram leis para punir o ócio. O trabalho é o que fazem aqueles cujo pão depende de outros. Os despojados trabalham. Os abastados vivem de rendas, do trabalho dos outros.

Não trabalhar, num mundo mais humano, não significaria viver uma vida sem sentido, de lazer e preguiça. Trabalho é simplesmente a palavra que designa essa relação de dependência, essa espantosa separação entre capacidade e sobrevivência. Acabei de ler Shaman e é claro para mim que o esforço terrível para sobreviver dos nossos antepassados não era trabalho. A personagem principal começa por fazer a iniciação por que todos os futuros xamãs passam. É deixado nu, sozinho, em pleno Inverno da Idade do Gelo. Tem de encontrar abrigo, fazer fogo, aquecer-se para não morrer congelado. Defender-se dos predadores, caçar. Fazer roupa, a partir das peles, construir diques para apanhar peixe. Manter o fogo, não morrer congelado. Descobrir o caminho de volta, não morrer congelado. Nenhum instante do que ali faz é trabalho. É mesmo o seu oposto. Loon, assim se chama, conquista a sua autonomia. Sobrevive e cuida de si.

A nossa forma de viver é sempre mediada pelo dinheiro. E o dinheiro não se pode plantar nem colher, muito menos comer. O hominídeo mais apto do mundo, no meio de uma crise financeira, sem emprego nem segurança social, sem amigos nem família, sem casa e sem comida, morre. Morre uma morte estúpida e indesculpável. Sociedade é palavra que passou a designar formas de organização terrivelmente desumanas. Mas o Antropoceno não é o Neolítico. E o primitivismo é uma utopia melancólica, um paradoxo perigoso. O China Miéville costuma dizer que não sabemos, não poderemos saber o que seria um mundo pós-capitalista. Devemos tentar lá chegar, mas só lá chegando é que poderemos ter ferramentas para sonhar o futuro que agora nos é inacessível. É uma ideia com algum mérito. Eu que sou um primário, penso logo no que é essencial. A fome não dá a solução. O desconforto de não ter comida, de não comer dias a fio não aponta para o local onde se encontrará comida. Mas diz: come. Podemos não saber como viver melhor, como exercer a liberdade que nos é vocação. Mas sentimos nas entranhas, no coração o mandamento: vive.

#000074 – 29 de janeiro de 2020

HUE, na segunda época de Final Space, tem um corpo. Tal como HAL 9000, HUE é uma inteligência artifical. E como em 2001 Odisseia no Espaço, na primeira temporada é uma voz que paira, anima e controla uma nave espacial. Omnipresente e tétrica. Esta voz, de uma humanidade demasiado eficiente, tem uma natureza imaterial, ao mesmo tempo a roçar o divino e o obsceno. É a sua esterilidade que assusta. A ausência de ambiguidade projeta uma sombra pesada, um fantasma de significado com todas as conotações do mundo. HUE, obviamente, é uma personagem cómica. Em 2020, os criadores desta animação fizeram-lhe uma maldade. Deram-lhe um corpo. Não o de um androide ágil e hiperhumano. Não. Uma caricatura, que não dobra os joelhos e é pateticamente lento e ineficaz. A voz, a mesma. Agora, aquela voz divina e simpaticamente ameaçadora é a voz de um boneco adoravelmente inofensivo.

Os eliminativistas gostam muito da analogia hardware/software como atalho para dizer que não compreendem este problema da biologia e mente humanas. Consciência é palavra problemática. A derrota do dualismo deixou um vazio e apenas uma expressão, romântica e desafiadora: “The Hard Problem”. O problema da consciência não parece ser um verdadeiro problema para os místicos como Ray Kurzweil. No que me toca, gosto da provocação de Thomas Nagel, enunciada logo no título do livro: “Mind and Cosmos: Why the Materialist Neo-Darwinian Conception of Nature is Almost Certainly False”. Foi precisamente Nagel que escreveu o influente artigo “What Is It Like to Be a Bat?”, há 45 anos. Escuto Radiohead, o mel da sua melancolia a distrair-me como um beijo a seguir ao orgasmo, impedindo a queda no eu. Não sei que espaço haverá para o humano no futuro, mas sei que o paraíso dos singularistas é o meu inferno.

#000073 – 28 de janeiro de 2020

Em Ecotopia, o norte da California, o Oregon e o estado de Washington separam-se dos Estados Unidos. A sociedade que foi imaginada por Ernest Callenbach vive da colaboração livre de indivíduos, de um foco na sustentabilidade e de um certo primitivismo. O que mais me pareceu utópico, no entanto, foi um detalhe. Ali, desapareceram aparentemente os papéis de cliente e funcionário. Há cenas em que o americano que está de visita (e que é o narrador) entra num serviço e está à espera de ser atendido de imediato, sem sequer se apresentar e cumprimentar a pessoa que o atende. Não funciona. Onde quer que vá, todos começam por lhe perguntar de onde vem, por dizer bom dia ou boa tarde. E nada avança até que recebam de volta cortesia, amabilidade, decência. As pessoas esperam ser tratadas como pessoas, não como peças eficientes. A loucura que alguns escritores permitem à sua imaginação não tem limites.

#000072 – 27 de janeiro de 2020

Escutar o Zizek é tomar a minha dose de veneno de cobra. Imagino que mordidelas futuras não me derrubarão, porque me fui inoculando. Escuto, naquele estertor obsessivo, como a felicidade é coisa má, como boa parte do que acredito está errado. E encontro fragilidades no meu sistema imunitário. Vou-me fortalecendo, quer porque caducam ideias, quer porque outras resistem. E continuo: hippie e hedonista.

#000071 – 26 de janeiro de 2020

Releio “The Matter of Seggri”. Tudo é diferente do que me lembrava. Le Guin é mais subtil na forma como reordena as relações de poder entre os géneros. Percebo que um conto que publiquei poderá ter sido influenciado pelos casamentos entre mulheres, naquela sociedade. Não me lembrava destas parcerias de 2, 3, 5 e mais mulheres. Na minha história há mais géneros debaixo de um mesmo teto, mas a mesma igualdade. É uma história sobre segregação. E só agora que escrevo a palavra portuguesa aqui noto que o nome Seggri poderá ter surgido a partir de segregation. Ursula K. Le Guin escreveu sobre o que seria um mundo em que há segregação dos géneros. Imaginou o que seria acentuado, o que desapareceria e o que seria novo, num mundo em que há muito mais mulheres que homens e em que, segundo uma personagem, “the men have all the privilege and the women have all the power.”

#000070 – 25 de janeiro de 2020

Um dia vi um elfo. Desapareceu na paisagem, como tinta. Hoje, a medicina dá visão a algumas pessoas que nasceram sem ela. Os contornos, a separação entre objetos, a associação entre o estímulo e o significado, tudo isto tem de ser aprendido. A percepção vem antes do significado. Quando já temos os nossos signos e mitos e um novo universo de sensações nos invade, tudo treme, ameaçado na sua coerência. A sanidade será uma forma de nitidez. O momento de o artista chamado consciência dar um passo atrás e medir com o pincel os elementos do esboço.

#000069 – 24 de janeiro de 2020

As flores dizem-nos: a beleza e a saciedade são irmãs.

#000068 – 23 de janeiro de 2020

O fim de um livro bom adia-se. Fazendo de um dos paradoxos de Zenão uma tática, dividimos as páginas que restam ao meio, e depois de novo. Num dia, damos um passo satisfatoriamente curto. No seguinte, uma fração. Depois, estendemos a toalha do tempo e tornamos a refeição ainda mais frugal. Encontraremos nos espaços entre cada avanço um infinito. Contemplamos uma frase, fingimo-nos distraídos. Desfolhamos com prazer, nem sequer lendo, a mesma página para a frente e para trás. Atentos ao som do papel, vivendo já no mundo das personagens. O fim de um livro é uma inevitabilidade que se pode contrariar. Um dia, alguém me disse que o seu livro favorito está por terminar. As últimas páginas um desfecho guardado. George Steiner começou o “Grammars of Creation” com a maravilhosa “We have no more beginnings”. E eu penso: but we will always have endings. Let's just save them for last.

#000067 – 22 de janeiro de 2020

Falamos do panda-vermelho. De vários tipos de felinos. Das lontras. E finalmente de ursos. Há ursos na Grécia. E muitos lobos, diz-me a minha amiga grega. A certa altura afirma que quando escuta uma história de uma pessoa ter sido atacada por um urso, pensa sempre: o que estava aquela pessoa a fazer no habitat do urso? Não sei se falava de ursos gregos ou de ursos na televisão, em programas americanos. Rimo-nos e enternecemo-nos com a fofura dos animais peludos, com a forma como os pandas bebés atacam as pernas dos cuidadores, como rebolam e se movem tão adoravelmente.

Agora, sinto uma inquietude que na altura não foi evidente. Quando é que decidimos que o mundo dos animais selvagens e o nosso têm fronteiras bem distintas? As outras espécies cruzam-se, os rugidos e certos comportamentos servem para avisar os vizinhos para se afastarem. A convivência tem risco. A coabitação tem sobressaltos. “Are Humans Part of Ecosystems?” é o título de um artigo académico publicado em 1998. Além de ser uma expressão pesquisada por mim no Google. Diz a introdução do artigo, sugerindo o sentido da resposta, “To deny that they are seems ridiculous; to accept that they are, on the other hand, strips the concept of any meaning.”

O modelo de sustentabilidade do Japão é talvez o exemplo mais bem sucedido da forma como nos vemos, tendencialmente. O humano e a tecnologia de um lado, a natureza do outro. Os japoneses decidiram conscientemente modernizar-se e fizeram-no relutantemente, quando as potências coloniais lhes estavam à porta, durante a Restauração Meiji. O isolacionismo do governo Tokugawa foi substituído por uma abertura que ao mesmo tempo reforçou a tradição. Se a China é comunista e capitalista, o Japão é ocidental e japonês. Em vez de se juntarem para não serem vencidos, estes dois países usaram a adoção de uma cultura externa como a melhor maneira de manter essa cultura à distância. No Japão, disso nos dá conta Jared Diamond, a proteção da floresta começou no século XVII. E durante a ditadura dos xoguns no Período Tokugawa, era possível ser condenado à morte por abater árvores. O fim desta era no século XIX abriu caminho para que o Japão se industrializasse rapidamente e se tornasse mesmo um dos líderes tecnológicos mundiais. Mas a Restauração continuou a férrea proteção da área florestal e o modelo nipónico que ainda se verifica concentra propositadamente a população em cidades e deixa o campo quase intocado. Os japoneses podem usufruir da modernidade das suas metrópoles e visitar verdadeiros santuários naturais, a escassas dezenas de quilómetros, em que o tempo parece ter parado.

O Japão está longe de ser uma utopia. E vêm-me à cabeça imagens que não vi, imaginei apenas. Durante 400 anos o império Khmer prosperou. Quando António da Madalena chegou a Angkor em 1586, já a grande cidade tinha sido saqueada. Angkor é palavra que significa, muito prosaicamente, “cidade capital” e investigadores concluíram que tinha mais de mil quilómetros quadrados. Como comparação, em 2020 Atenas tem 412 e São Paulo 1.521 quilómetros quadrados. Foi a maior cidade da Antiguidade, com um sistema sofisticado de irrigação que conseguia fazer face às monções, drenando e reaproveitando a água. Comida, água e animais eram tão parte da grande cidade como os humanos. Nunca se estava longe de água e a comida era cultivada e colhida dentro da área urbana de Angkor. Nem vestígio da oposição entre as cidades e a serra em Eça de Queirós, entre o cosmopolitismo e o provincianismo, em “Madona” de Natália Correia. E nenhuma vontade, como os japoneses, de visitar a natureza como a um jardim, vivendo entre betão e neon. Angkor Wat, o maior templo, dos mais de mil que existiam, continua de pé e é ainda o maior do mundo. Não se sabe ao certo a população da grande cidade, que poderá ter andado entre 750 mil e um milhão de pessoas. Resisto à ideia de que as metrópoles atuais são mais evoluídas que Angkor. E pergunto-me: serão as atuais grandes cidades mais adaptadas à vida humana que as experiências de anteriores civilizações?