view#002028 – 16 de Dezembro de 2024
mãos dissonantes
Se por vezes a intensidade clara do sentimento te assusta como se uma treva. Outras vezes é a turva intensidade que vais buscar para que doa ou exalte, de novo. A mão que ergues, abre-se rígida, aberta, para te fechar. Diz que não, não ainda, não aguento, não quero, não posso. A outra vai remexer. Diz, faz sentir, fui mau, mereço mal, mereço mais, fui bom, senti muito, foi lá atrás, antes, lá atrás é que foi.
É como se só a memória fosse suportável e segura. Conduzes-te assim, com duas mãos bastante ocupadas, uma que trava, outra que remexe. Com medo, sobretudo, com medo. Não vá vir de frente algo que seja necessário abraçar, e tu com as mãos tão ocupadas.
21 de Junho de 2015
view#002027 – 15 de Dezembro de 2024
É fácil esquecer que negócio é a negação do ócio. Ou não reparar que regresso é a reversão de egresso.
view#002026 – 14 de Dezembro de 2024
Novo conto, para um concurso. Regresso a mais um regresso.
view#002025 – 13 de Dezembro de 2024
Já perto, o vento atira-me com chuva gelada e horizontal. Abrigo-me precariamente numa paragem de autocarro e lá chamo o Uber. Os dois metros até entrar no carro, faço-os com o carapuço. Dentro está confortável e quente, e a música é uma agradável bossa-nova, na voz da Maria Rita. Passado um par de minutos num silêncio tranquilo, e porque o motorista se chama Mateus, penso, que bom ter apanhado este brasileiro, e arrisco: “que música boa, lá fora está inverno mas aqui é... tropical”. Mateus respondeu-me num belo e inequívoco sotaque do Porto: “é, vou ouvindo rádio para me distrair, é trânsito o dia todo. Mas às vezes mudo de rádio e tá a dar a mesma música”. O meu comentário teve o efeito inesperado de rebentar aquela bolha momentânea de sossego. Lá fomos falando a caminho da Praça Velásquez, vendo o semáforo fica vermelho mais que uma vez. Ao chegar, os poucos metros até à clínica foram de vendaval, quase cinematográfico. Quase me apeteceu ter uma gabardina esvoaçante, em vez do hoodie. À espera da consulta com o nutricionista, escuto a habitual muzak, de tons jazzísticos, desta vez com temas natalícios. Mudou o ecossistema, os cliques do rato da recepcionistas e as buzinas dos automóveis lá fora compõem a atmosfera sonora. Antes do último ponto final, escuto ainda uma folha a ser impressa e um telemóvel a vibrar.
view#002024 – 12 de Dezembro de 2024
Aos 13 anos, comecei por escrever crónicas. Isso parou quando li um livro do Miguel Esteves Cardoso e, por comparação, percebi que o fazia muito mal. Virei-me para a poesia até ler os Poemas Completos, do Herberto Helder, aos 19 anos. Há muito tempo que escrevo ficção, hábito de que não me consigo livrar, por mais que leia histórias, sobretudo de ficção científica. Não sei o que isto diz sobre a minha persistência. Ou sobre a minha sanidade.
view#002023 – 11 de Dezembro de 2024
Trabalho de manta nos joelhos. Escuto Beauty Pill e sacudo os ossos.
view#002022 – 10 de Dezembro de 2024
Deixo aqui uma das muitas sinopses de potenciais contos que não escrevi e que nunca escreverei. Sou menos que um escritor, sou meramente um anotador de ideias. Sou o que recolhe sementes e as coloca no frigorífico, em vez de cuidar da planta e fazê-la florescer. E chego a confundir pedras com sementes.
A prisão dos sonhos (17 de Outubro de 2022)
Um cientista louco inventa uma máquina que aprisiona pesadelos, que os torna realidade material.
Tudo começa a correr mal, enquanto ele se vicia no efeito da máquina e consome as vítimas, deixando-as sem capacidade de sonhar. Uma criança infeta a máquina, libertando os pesadelos, com uma gota de sonho.
view#002021 – 09 de Dezembro de 2024
Reler uma história passados anos é descobrir o que não era possível saber enquanto escrevia. No conto Mundo do Fim, algo óbvio só se tornou saliente com a minha releitura hoje: a narrativa tem um protagonista ausente. Não lhe conhecemos pensamentos nem acções nem ponto de vista. Faz sentido que tenha escrito dessa forma, porque queria intensificar o que está a acontecer à volta do protagonista e mostrar como o mundo se vira contra ele, mas na altura não pensei nisso.
view#002020 – 08 de Dezembro de 2024
Vou talvez (re)começar com um inventário: que histórias estão acabadas, se haverá algumas que devo terminar. Quais ainda quero publicar, quais ainda tenho fôlego para escrever.
view#002019 – 07 de Dezembro de 2024
Dois universos habitam a minha imaginação e muitas centenas de páginas. Num deles, há uma diáspora humana, que habita um sistema estelar que não o nosso. O outro é uma terra num futuro longínquo, pós catástrofe ecológica, em que a humanidade se reconstrói com tecnologia rudimentar. O tempo de um e outro é o mesmo. Ao mesmo tempo (que os eventos de um e outro são narrados) há humanos descendentes dos que ficaram e há os descendentes dos que partiram. Não sei se alguma história fará uma ligação que torne isso evidente. Há muitas dezenas de personagens que vivem comigo há anos, ainda esperançosas que os seus mundos cresçam e que as suas vidas se desenvolvam. Algumas das suas histórias estão terminadas. Mas a maior parte é mapa desconhecido. Tanto cartografei que descurei as páginas onde estes lugares e personagens deveriam estar.