Kroeber

#001948 – 27 de Setembro de 2024

Danço ao swing de deserto dos Tinariwen. Celebro já uma sensação quase nómada. De manhã, alforges carregados, pedalo mais de 100 kms.

#001947 – 26 de Setembro de 2024

Sábado começo nova viagem. Pedalo de Rio Tinto até à Foz do Arelho.

#001946 – 25 de Setembro de 2024

Envelheço e digo que tenho mais jeito para tio que pai, mais inclinação para amigo que companheiro romântico. Não sei se é desculpa, para disfarçar a solidão e o hábito. Mas acredito que acredito nisso.

#001945 – 24 de Setembro de 2024

Hoje o meu avô faria 100 anos. Nem mil séculos curariam esta saudade.

#001944 – 23 de Setembro de 2024

Escuto Piedmont Apocrypha, a sua nostalgia psicadélica muda a cor do quarto, a chuva lá fora molha o ruído dos pneus dos automóveis. Soletro desalento e aconchego com as mesmas letras interiores.

#001943 – 22 de Setembro de 2024

A voz de David Sylvian, em Transit, de Fennesz, embala-me e magoa-me na sua delicadeza triste de Cassandra. Faz vinte anos este álbum. Em 2004 escutávamos já esta implacável melancolia: “say your goodbyes to Europe, our history dies with Europe”.

#001942 – 21 de Setembro de 2024

Robert Sapolsky escreve sobre a visita aos gorilas da montanha, no Ruanda, 6 meses depois de Diane Fossey ter sido assassinada. Segundo ele, tinha então finalmente passado aquela fase da vida em que já não podia dar-se ao luxo de gastar o tempo necessário para viajar grandes distâncias à boleia, mas ainda não podia dar-se ao luxo de gastar o dinheiro necessário para viajar através de um meio mais rápido.

#001941 – 20 de Setembro de 2024

Chego ao alojamento, depois de uns quilómetros a pedalar. A casa de banho é partilhada e fico irritado, porque tenho de esperar para a usar. Olho o ecrã do telemóvel e leio a notícia de que Israel bombardeou Beirute, matando 14 pessoas.

#001940 – 19 de Setembro de 2024

Depois dos incêndios, chuvas torrenciais. Talvez a seguir venham gafanhotos.

#001939 – 18 de Setembro de 2024

No matter the languages we speak or the colour of our skin, we share ancestors who planted rice on the banks of the Yangtze, who first domesticated horses on the steppes of the Ukraine, who hunted giant sloths in the forests of North and South America, and who laboured to build the Great Pyramid of Khufu.

Este é um excerto de um artigo científico publicado na revista Nature. Nele ficamos a saber que entre 500 a 3.000 anos atrás viveu o mais recente antepassado comum de toda a humanidade. Isto significa que todos, no planeta, somos descendentes de alguém que viveu há apenas cerca de 17 gerações atrás, no mínimo, ou à volta de 108, no máximo.

A insistência nas doenças civilizacionais como o nacionalismo e o racismo é ignorância do facto de sermos, não só da mesma espécie, mas da mesma família. Não existem, na verdade, raças. E as nações são ficções temporárias, que darão lugar a outras. Infelizmente quer a raça quer a nacionalidade são osso afiado da calcificada estrutura identitária que nos querem impingir, para nos dividirem e melhor nos reinarem.