Kroeber

#001779 – 19 de Julho de 2024

Primeiro dia. Acordo às 5h30 para ir de comboio até Viana do Castelo. Uma bola de berlim no Zé Natário e pedalo até Ponte da Barca, com sombra. Afasto-me um pouco do Lima, para 10 kms pela EN-230. Entre-ambos-os-rios é um local rodeado de água e verde. Como um prego com queijo da serra em pão rústico e leio um pouco. Desço até ao rio. Uns holandeses tomam banho, parecem enregelados, queixam-se o suficiente para me adiar o banho. A margem é linda, erva e flores, à sombra de árvores de raízes submergidas. Molho os pés e apercebo-me de que a margem cheira muito bem. As flores roxas são de hortelã, bem viçosa aqui perto da água, que afinal está óptima. Mergulho com prazer, a tranquilidade nem sequer é perturbada por uma voz feminina francesa a falar, quase em surdina, sobre as eleições no seu país. Escrevo e o som do vento é agradável. Lembro-me dos alfaiates, das libélulas azul eléctrico a voar silenciosamente sobre a água. Hoje no comboio, vacilei. Este coração empedernido, por momentos, sentiu uma enorme gratidão pela vida que tenho. A solidão é a cura, a forma de me preparar para lidar com o resto do mundo.

#001778 – 18 de Julho de 2024

A forma como o actual governo de Israel conseguiu obter um apoio quase incondicional dos Estados Unidos e da União Europeia mostra, entre outras coisas, como os fundamentos da política identitária falham tragicamente.

Mais ainda que apoio militar e político, o governo de Israel conseguiu que os governos seus aliados limitem de forma intensa e implacável qualquer manifestação de uma opinião contrária ao caminho actual, de genocídio, repressão e colonialismo levado ao extremo. Nos Estados Unidos e um pouco por toda a Europa, na Alemanha com uma intensidade alarmante, quem protesta pacificamente sofre violência policial, quem exibe uma bandeira da Palestina é removido do espaço público.

O governo de Netanyahu conseguiu instrumentalizar um dos mantras do activismo identitário: que só a vítima de opressão tem legitimidade para definir o que é opressão e que tudo aquilo que é apontado pela vítima como opressão o é obviamente.

Muitos judeus, por todo o mundo, estão na primeira linha dos protestos, sofrem cargas policiais e arriscam diariamente as consequências da sua resistência, em solidariedade com os palestinianos. Ainda assim, este governo israelita conseguiu convencer o mundo que é a máxima instituição que representa a voz dos judeus todos, a viver em Israel ou na diáspora, todos os que vivem ou já não estão entre nós. E que o mundo deve seguir à risca o seu regulamento sobre o que é ou não é anti-semitismo. E para Netanyahu qualquer opinião contrária às suas políticas é, obviamente, anti-semitismo.

Estou muito pessimista. Não acredito que consigamos, nos tempos que se avizinham, tirar lições disto. Temos até agora combatido opressão com opressão, intolerância com intolerância, ataques à liberdade de expressão com o escalar a esses ataques. Não vejo indícios de mudança. Temos de resistir, continuar solidários com todos os seres humanos que sofrem às mãos de exércitos invasores ou sob o jugo dos seus próprios governantes. E encontrar forma de manter lucidez argumentativa, abertura e respeito por quem discorda de nós, e não sucumbir às armadilhas que levam a desumanizar o adversário ou a desconsiderar vozes dissidentes. Mas não sei como.

#001777 – 17 de Julho de 2024

Sobre Homogenic, diz Björk: “we did not want to go back to Nature; we wanted to go forward to Nature”. Eloquência que só alguém quem fala inglês como língua estrangeira pode ter.

#001776 – 16 de Julho de 2024

Há borboletas que bebem lágrimas de tartaruga.

#001775 – 15 de Julho de 2024

Férias em breve. Mais de mil quilómetros em três semanas.

#001774 – 14 de Julho de 2024

O Sonic Symbolism, da Björk, é um documento maravilhoso.

#001773 – 13 de Julho de 2024

Alguém tenta assassinar Trump. A política americana é coisa feia, violenta. E ameaça piorar. O atentado apenas criou um herói desnecessário. Foi um acto aberrante que falhou em cheio.

#001772 – 12 de Julho 2024

Pneus 38 na bicicleta. Farturas e chá Gorreana.

#001771 – 11 de Julho de 2024

Dentro de doze dias, novo livro do China Miéville à venda.

#001770 – 10 de Julho de 2024

Uboa é um poço de criatividade. Uma fonte, funda, com ecos e sombras, ruídos indecifráveis e matéria escura, fecunda e implacável, a debitar o que não se consegue dizer, de outras maneiras mais macias e claras. 2024 é o ano em que o Black Metal se afirma definitivamente como uma arte, uma expressiva magia negra, dominada, entre outras vozes, por mulheres transgénero. Depois de várias maravilhosas apropriações dos espaços e clichés da opressão, ressignificando em luz o que nasceu em dor, até o Black Metal, com origens tão misóginas e racistas, se regenera nestas novas narrativas. E nunca este género de música, como agora, foi tão interessante e imprevisível. Impossible Light é um álbum eloquente e enigmático, essa luz impossível que vem do abismo.