Kroeber

#001729 – 30 de Maio de 2024

É sobretudo comigo que me desiludo.

#001728 – 29 de Maio de 2024

Disse James Baldwin “no one's ever wanted, really, to be free”. E muitos, os poucos com algum poder, não só não querem como se empenham em que os outros não sejam livres. Uma pessoa livre pode virar costas a uma situação de exploração, de abuso, de coação. Basta enunciar as coisas assim, para termos de acrescentar que todas as pessoas devem poder virar costas a uma situação de exploração, de abuso, de coação. E por isso a liberdade se tem de tornar um imperativo moral, uma necessária estrutura ética, um objectivo colectivo obrigatório para qualquer sociedade, grupo pequeno, organização ou país. Não a liberdade de que os social-darwinistas ou libertários de direita falam, que é precisamente a liberdade de explorar sem consequência, mas a liberdade que nos une e co-responsabiliza como um bem comum, um objectivo de todos os seres humanos. O pessimismo de Baldwin é compreensível e tem uma grande profundidade ética: a de que mesmo tragicamente falhando, temos de lutar pela liberdade e pelo amor. A vida só é bela e justa assim. Não sou pessimista, só por achar que havendo forma de a vida valer a pena, mesmo em estrondoso falhanço, já me torna, aos meus olhos, optimista.

#001727 – 28 de Maio de 2024

Há situações sociais em que reajo como se fosse esperado de mim contribuir com algum tipo de opinião ou argumento. O que me confunde e derrota é que o enunciado assim o afirma. A hipocrisia, em muitas situações profissionais, não é defeito, é a própria linguagem de relações em que o poder é desigual. De quem está na mó de baixo é esperado apenas que confirme, validando, o que a pessoa com preponderância deseja (mesmo que não seja legítimo, lógico ou sequer claro).

#001726 – 27 de Maio de 2024

Há dias em que detesto o que faço para ganhar dinheiro. E sim, ajuda relativizar, pensando que é um privilégio ter um emprego que às vezes me faz sentir assim. Felizmente é um problema bom de ter.

#001725 – 26 de Maio de 2024

Em situações sociais, reconheço padrões. Mas tenho muita dificuldade em perceber se um padrão que reconheço é interior, feito da minha adaptação a um conjunto de circunstâncias, ou exterior: o próprio conjunto de circunstâncias em si, semelhante a situações anteriores.

#001724 – 25 de Maio de 2024

A sequência Recamán, traduzida em notas musicais, faz lembrar música contemporânea, atonal, impressionista.

#001723 – 24 de Maio de 2024

A tradição é preservar o fogo, não idolatrar as cinzas. Aprendi hoje este provérbio.

#001722 – 23 de Maio de 2024

O capitalismo faz coincidir de forma obscena a palavra liberdade com sucesso financeiro. Não que ter dinheiro seja mau ou feio. Mas esta habilidade semântica é uma habilidade política: de um só golpe, atira a liberdade para o poço social-darwinista da competição, promete-a como prémio a quem aceita todas as regras do jogo, até a própria corrupção que o vicia e, finalmente, justifica como merecedores os que são vencedores à partida, antes ainda de qualquer esforço.

#001721 – 22 de Maio de 2024

Às vezes comunico tão, tão mal. Dou uma ideia tão errada do que sou, do que sinto. Dizer que sou autista é arriscar uma explicação para um conjunto enorme de lacunas emocionais, uma expressividade com solavancos e opacidades, um vocabulário social que não domino, intuições que não tenho.

#001720 – 21 de Maio de 2024

Em “Racecraft” as irmãs Fields explicam que os afro-americanos não são discriminados por causa da cor da sua pele, mas sim por causa do racismo dos seus opressores. Em “Who's Afraid of Gender” Judith Butler explica que a discriminação com base no sexo de uma pessoa acontece não pelas características fisiológicas desse sexo, mas pelas assunções feitas sobre esse sexo e os papéis sociais que lhe são permitidos por quem discrimina.