Disse James Baldwin “no one's ever wanted, really, to be free”. E muitos, os poucos com algum poder, não só não querem como se empenham em que os outros não sejam livres. Uma pessoa livre pode virar costas a uma situação de exploração, de abuso, de coação. Basta enunciar as coisas assim, para termos de acrescentar que todas as pessoas devem poder virar costas a uma situação de exploração, de abuso, de coação. E por isso a liberdade se tem de tornar um imperativo moral, uma necessária estrutura ética, um objectivo colectivo obrigatório para qualquer sociedade, grupo pequeno, organização ou país. Não a liberdade de que os social-darwinistas ou libertários de direita falam, que é precisamente a liberdade de explorar sem consequência, mas a liberdade que nos une e co-responsabiliza como um bem comum, um objectivo de todos os seres humanos. O pessimismo de Baldwin é compreensível e tem uma grande profundidade ética: a de que mesmo tragicamente falhando, temos de lutar pela liberdade e pelo amor. A vida só é bela e justa assim. Não sou pessimista, só por achar que havendo forma de a vida valer a pena, mesmo em estrondoso falhanço, já me torna, aos meus olhos, optimista.
Há situações sociais em que reajo como se fosse esperado de mim contribuir com algum tipo de opinião ou argumento. O que me confunde e derrota é que o enunciado assim o afirma. A hipocrisia, em muitas situações profissionais, não é defeito, é a própria linguagem de relações em que o poder é desigual. De quem está na mó de baixo é esperado apenas que confirme, validando, o que a pessoa com preponderância deseja (mesmo que não seja legítimo, lógico ou sequer claro).
Há dias em que detesto o que faço para ganhar dinheiro. E sim, ajuda relativizar, pensando que é um privilégio ter um emprego que às vezes me faz sentir assim. Felizmente é um problema bom de ter.
Em situações sociais, reconheço padrões. Mas tenho muita dificuldade em perceber se um padrão que reconheço é interior, feito da minha adaptação a um conjunto de circunstâncias, ou exterior: o próprio conjunto de circunstâncias em si, semelhante a situações anteriores.
A sequência Recamán, traduzida em notas musicais, faz lembrar música contemporânea, atonal, impressionista.
A tradição é preservar o fogo, não idolatrar as cinzas. Aprendi hoje este provérbio.
O capitalismo faz coincidir de forma obscena a palavra liberdade com sucesso financeiro. Não que ter dinheiro seja mau ou feio. Mas esta habilidade semântica é uma habilidade política: de um só golpe, atira a liberdade para o poço social-darwinista da competição, promete-a como prémio a quem aceita todas as regras do jogo, até a própria corrupção que o vicia e, finalmente, justifica como merecedores os que são vencedores à partida, antes ainda de qualquer esforço.
Às vezes comunico tão, tão mal. Dou uma ideia tão errada do que sou, do que sinto. Dizer que sou autista é arriscar uma explicação para um conjunto enorme de lacunas emocionais, uma expressividade com solavancos e opacidades, um vocabulário social que não domino, intuições que não tenho.
Em “Racecraft” as irmãs Fields explicam que os afro-americanos não são discriminados por causa da cor da sua pele, mas sim por causa do racismo dos seus opressores. Em “Who's Afraid of Gender” Judith Butler explica que a discriminação com base no sexo de uma pessoa acontece não pelas características fisiológicas desse sexo, mas pelas assunções feitas sobre esse sexo e os papéis sociais que lhe são permitidos por quem discrimina.