#002247 – 24 de Julho de 2025
Hoje estou mais novo que ontem. Menos mortal, mais disponível para continuar a viver.
Hoje estou mais novo que ontem. Menos mortal, mais disponível para continuar a viver.
Volto a usar o Tinder e surge-me um tipo de anúncios no Instagram que nunca tinha visto: aplicações, serviços, plataformas (e algumas fraudes também, imagino) a prometer colocar ao meu dispor assistentes de inteligência artificial para a minha comunicação com mulheres. É isto estar online: ser insultado pelo marketing, que nos dá soluções para problemas que até então desconhecíamos. Às interações humanas querem juntar, vendendo, a lógica da produtividade, do hack, da eficiência, da competição. Conhecer pessoas novas é, deve ser, quero que seja, absolutamente analógico, imperfeito, humano.
Estes textos estão atrasados 101 dias. Faltam 61 dias para o fim do ano. Nas minhas contas rudimentares, chego à conclusão que basta escrever pouco mais de dois textos e meio por dia até 31 de Dezembro e recupero o atraso. O ponto final neste texto já poderia ter sido colocado há mais de 5 minutos atrás. Quis verificar com o DeepSeek a minha lógica e o chatbot demorou tempos infinitos a dar a mesma resposta que eu. Má prompt de humano pouco hábil a usar “linguagem natural” para expressar uma pergunta matemática, dirão. Talvez. E haverá grande vantagem em me aproximar da estrutura lógica da máquina?
Envelhecer é processo que às vezes desacelera, numa câmara lenta cinematográfica, em que os sorrisos duram muito, as vozes se distorcem e as quedas demoram.
Na pastelaria, a música é brasileira, os éclairés são minis, as janelas atravessam a parede do fundo, a árvore lá fora é bem maior que o prédio de 4 andares, a chuva faz uma pausa, o Porto está imerso em neblina e eu aguardo a hora da fisioterapia.
Às vezes esqueço-me que sou livre. Vivo por hábito, receio, modos de pensar que já não me explicam nem comunicam bem com o mundo, expressões que deixam muito por dizer às pessoas em volta, medos e sensibilidades desajustadas, casca demais para tão tenro coração.
Sim, às vezes envergonho-me dos meus problemas, de uma certa fragilidade emocional. Há tantas pessoas com problemas a sério, que não vêm de dentro, mas das bombas que caem, da violência que sofrem às mãos de outro ser humano. Esse contraste talvez o use para acicatar a culpa que alimento. Mas é uma barreira estúpida que coloco, posso juntar-me a uma causa em que ajudo quem necessita. E ao mesmo tempo tratar de mim. Amarrotar-me e não fazer nem uma coisa nem outra é que não beneficia ninguém.
Deixar de escutar música é sintoma que conheço. Deixar de ler é sintoma pior, sinal de mais avançada maleita. Este mais curto, já ultrapassado. O primeiro ainda em vestígio, agora que inicio a convalescença.
Estar presente. Nem tudo, quase nada, é ameaça. Ser equânime, luminoso, basta deixar de inspirar cinza.