Há uma seriedade cujo tom não conhecia, que venho sentindo. É uma espécie de serenidade focada, um repousar da necessidade de me sentir bem. É o que fica quando não há apego nem ao prazer nem à dor. Reparo mais no que me rodeia, a cabeça está tranquila, o corpo ganha vigor.
Feliz não é bem a palavra para isto. Sinto-me em contacto com a realidade, motivado para me conhecer, removendo as desculpas habituais com que paraliso a minha vida. Não é bem felicidade o que sinto, é a sua condição: lucidez.
Vejo o Douro e o mar entardecerem, numa longa caminhada de várias horas. A lentidão dos passos permite viajar, até interiormente.
Ainda cheio de desconfiança e cautela, acho que começo a gostar de mim.
Começo os dias com duches frios. Fico desperto e calmo. Durmo bem.
Tentar que isto dure, esta vontade de viver. Sem carimbar o fôlego de patológico, a energia de perigosa. Ser bipolar habituou-me a desconfiar da alegria, da motivação.
O amor é esse espaço que fica quando removo os constrangimentos com que me relaciono com outra pessoa. Acontece quando já não a tento manipular, mudar, persuadir, controlar. Quando abdico de hábitos, preconceitos e fórmulas na relação. Quando deixo de depender da pessoa ou de querer que ela dependa de mim. Amar é permitir que a outra pessoa seja quem é, aceitar que a sua felicidade não depende das minhas regras, limitações ou valores, e ser cúmplice do seu bem estar.