view#002227 – 04 de Julho de 2025
Estou mais de dois meses atrasado nos textos que aqui escrevo. Já esgotei as analogias com viagens no tempo. Estou, tente-se algo de novo, a rebocar este diário com uma corda elástica. Às vezes ela estica muito e o texto mais recente afasta-se do dia em que o escrevo, outras vezes, como agora, o elástico contrai e aproxima a data-título da data real.
view#002226 – 03 de Julho de 2025
Loja do Cidadão. Alterno entre a leitura de Empire of AI e Record of a Spaceborn Few. Estou irrequieto, de mau humor, esqueci-me de novo da aula no ginásio. Estou parado, felizmente, ainda a hesitar desistir já de tudo para me fechar mais ainda. Sei que é simples (fácil ou não é outra história) mexer-me no sentido contrário, ir para fora, para cima, para a luz, mover-me. Há que sabotar a auto-sabotagem.
view#002225 – 02 de Julho de 2025
Entre outras coisas, a depressão coloca-nos como observadores passivos da nossa miséria. Cair em depressão é irmo-nos retirando do centro da nossa vontade. Os padrões antigos talvez sejam um conforto melancólico. Como assistir ao consecutivo desligar das luzes de uma rua que conhecemos só assim, ao escurecer. Há que recordar as formas como tenho conseguido reacender-me de volta à vida.
view#002224 – 01 de Julho de 2025
O pitch final em que o protagonista comove as outras personagens, mostrando tudo o que aprendeu e quanto cresceu durante as peripécias por que passou é uma das figuras típicas do cinema americano. Uma comédia romântica geralmente tem esta cena como desfecho. Um filme de acção tem, tradicionalmente, outro tipo de desfecho, a que podemos chamar “it ain't over 'till the fat lady sings”. Depois de tudo o que passou o herói, finalmente a vitória, mas então, surpresa, ainda há um final boss, ou uma última tarefa hercúlea, ou um último perigo existencial.
view#002223 – 30 de Junho de 2025
Sou o único cliente num brunch nas Caldas da Rainha. A pessoa que me veio atender, que imagino ser quem me vai fazer uns ovos Benedict, está ao telefone em violenta discussão passional, a música de fundo é uma bossa nova de elevador, cantada em inglês.
view#002222 – 29 de Junho de 2025
Carpaccio de salmão, retoques num poema que possivelmente lerei numa próxima Purga, Record of a Spaceborn Few, que talvez termine no comboio de regresso.
view#002221 – 28 de Junho de 2025
É fácil acreditar que há uma pessoa compatível comigo, uma parceira romântica óbvia, a partilhar sentido de humor e demais apetites de vida. A improbabilidade é que eu alguma vez me cruze com essa pessoa.
view#002220 – 27 de Junho de 2025
O que menos gosto na expressão “não há almoços grátis” é o seu uso não metafórico. Há ideologias que consideram que passar ou não fome deve ser tratado como uma questão de mérito e não de direitos humanos.
view#002219 – 26 de Junho de 2025
E pago já, digo eu. É para ver se não foge, certo?, pergunta a recepcionista. Verdade, se não ainda tinham de mandar a polícia à minha procura, confirmo.
A primeira vez que vim ao nutricionista esqueci-me de pagar no fim. E embora tenha voltado a entrar pela porta, passado um par de minutos, criou-se a oportunidade para esta private joke com a recepcionista. Na segunda consulta eu apresentei-me e disse, é melhor pagar já, se não ainda me esqueço.
Agora é uma ritual de reconhecimento, que desperta dois sorrisos de cumplicidade e um ligeiro mas suportável embaraço meu, ao pensar que as outras pessoas na sala de espera não têm o contexto para o que estão a escutar.
view#002218 – 25 de Junho de 2025
Ao remexer em caixas antigas encontro, entre muitas outras coisas: um bilhete para o “Paisagem Azul com Automóveis” de 2001, a que que assisti como jornalista, a programação do primeiro trismestre de 2004 do CAE, da Figueira da Foz, um CD do Screaming Life/Fopp, dos Soundgarden, com a capa autografada, com pelo menos 3 assinaturas distintas, um caderno cheio de desenhos, incluindo o de uma futura tatuagem, que não se concretizou, mas serviu de inspiração para a minha primeira tatuagem. E depois, em papéis mais antigos: letras para uma banda grunge que nunca chegou a existir, com um colega do secundário, em 92, e mais antigas: letras e acordes de canções em português, das primeiras coisas que compus e toquei na guitarra. Ainda me lembro de algumas melodias e da óbvia e imensa falta de jeito para a música (de que ainda sofro).